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O Rio Potengi e seus topônimos

Sexta-feira, 01 de novenbro de 2013.02:14:14

Por - Profª Iaponira Peixoto de Brito

O rio Potengi é o principal rio do estado do Rio Grande do Norte, nasce no município de Cerro Corá a 500 m de altitude, e sua foz localiza-se no município de Natal, onde desemboca no Oceano Atlântico. Possui uma extensão de 176 km, perfazendo uma bacia hidrográfica com superfície de 3.180 km².

      O curso do rio Potengi, se divide em três seções distintas: O alto Potengi que começa nas nascentes, e vai até as proximidades da cidade de Barcelona. O médio curso, que começa na cidade de Barcelona e vai até a proximidade de São Gonçalo do Amarante, e o baixo curso que compreende os 19 km restantes do curso fluvial, desses, os últimos 10 km estão sujeitos à entrada da maré. O referido rio banha os municípios de Cerro Corá, São Tomé, São Paulo do Potengi, Ielmo Marinho, São Gonçalo do Amarante, Macaíba e Natal. Tem como seu afluente principal o rio Jundiaí na margem direita, e os demais afluentes da margem esquerda: Rio Camaragibe, e a junção dos rios Golandim e Doce que vem formar o estuário do Potengi.

      A origem do topônimo “Potengi” que em tupi-guarani significa rio dos camarões, foi dada pelos índios potiguares, apelidados de “comedores de camarão” que viviam em uma grande aldeia à sua margem esquerda.  O rio Potengi, assim como os demais rios do mundo não possui só uma nomenclatura, ou uma única forma de ser chamado ou reconhecido, ele possui nomes ou apelidos. No texto “A cidade do rio” de Silva “É o rio Grande dos primeiros tempos coloniais, devido ao seu leito e extensão, era o rio Salgado para os habitantes da Vila de Natal nos idos dos oitocentos, ou ainda aqueles mais antigos que nós que viviam em Aldeia Velha (Igapó) e diziam: Para cima é Jundiaí, para baixo o Potengi – o Potengi dos índios”.

      No entanto, apesar da importância histórica e econômica deste rio para o estado do Rio Grande do Norte, e principalmente para a capital (Natal), este cartão postal da cidade tem sofrido agressões por parte do homem e do processo de urbanização desordenada, pelas quais tem passado as demais capitais brasileiras.  Diariamente é jogado no leito do nosso rio, toneladas de lixos domésticos, hospitalares e industriais. A função principal do nosso rio, não é só embelezar a cidade de Natal, mas, principalmente equilibrar a umidade do ar e todo ecossistema. Atualmente, a sua água já não serve para o consumo humano, pois está totalmente contaminado por poluentes totalmente nocivos à saúde, como também a piscicultura que era uma das fontes de sobrevivência da população ribeirinha, tem se tornado inviável devido ao alto nível de poluição das suas águas.

       Todos estes problemas vivenciados pelo rio Potengi, é constatado de forma abusiva nas suas margens, e principalmente nas áreas próximas aos aglomerados urbanos. Algumas providências de forma incipiente foram tomadas, são projetos isolados como é o caso do barco escola “chama maré” que procura resgatar a história do rio Potengi, e outro projeto do governo do estado gerido pelo IDEMA. No entanto, ainda é muito insignificante diante da gravidade do problema, é preciso de campanhas educativas constantes, e o uso da mídia em prol de uma causa necessária, urgente e preocupante, que possa conscientizar e incentivar a população a exigir do poder público, medidas de preservação do nosso rio.

 


O rio Potengi e a sua importância econômica na Capitania do Rio Grande no Séc. XIX.

       O nascimento e a entrada da povoação de Natal estão intrinsecamente ligados à existência do rio Potengi, desde o período colonial. Talvez, em lugar de destacarmos a importância política e estratégica da cidade de Natal desde o início do seu povoamento, devêssemos pensá-la “O rio (Potengi) da cidade, ou ainda como a cidade do rio” segundo Roberto Silva.

       A história da cidade do Potengi (ou rio Salgado), e de tantos outros rios é contada através da comercialização das mercadorias que utilizavam sua rede hidrográfica para navegação, através dos seus afluentes, portos e gamboas. Podemos afirmar que o fluxo e refluxo de mercadorias, e os interesses políticos, se davam através dos rios que é um organismo vivo, que dá consistência a cidade, que a mantém viva, ativa e presente na história. O rio é como um corpo, que uma vez vivo precisa de alimento, e como todo corpo precisa de algo que o direcione “a cabeça”. A cidade torna-se o órgão que norteia o rio, pois sobrevive e precisa dele para se manter.

      Partindo da relação e comparação que a cidade é a cabeça do rio, e o próprio rio um corpo vivo e ativo, que deixa seus dejetos, seus restos, suas porções abandonadas e transformadas pelo homem, e que além de transformá-lo, muda a direção do seu próprio curso, provocando desequilíbrios ao meio ambiente. Toda essa simbiose entre o rio e a cidade, e as suas contradições, é gerada pela ação do homem através do comércio, do sistema de transportes, da vida econômica e política da cidade, e da existência de uma cidade, cuja existência e vida passam sem dúvidas pelas artérias do rio.

       No Séc. XIX, a principal via de distribuição de mercadorias importadas do litoral do Rio Grande era feita através do rio Potengi, importadas do litoral do Rio Grande, que naquele período tinha uma economia voltada para a produção açucareira e a pecuária. Os principais mercados consumidores estavam localizados nas proximidades desse rio, nos engenhos e nas cidades que viviam do comércio da cana. A aristocracia da indústria açucareira tornou-se uma classe arrogante, adotando costumes importados da aristocracia europeia, como forma de mostrar seu poder econômico e ascensão social. Sendo, portanto, consumidores constantes das mercadorias manufaturadas vindas da Europa, que entravam pelo porto de Natal desde as primeiras décadas dos oitocentos. Segundo Rocha Pombo, “O principal obstáculo para o comércio da província naquele período, era a dificuldade de locomoção, principalmente no interior, com estradas que eram praticamente as mesmas nos tempos coloniais, como também o transporte marítimo e a maioria dos rios em estado natural”.

      Por volta de 1850, Fabrício Gomes Pedrosa herdou algumas terras próximas à cabeceira do rio Jundiaí. Fabrício ao perceber o grande trânsito de embarcação que levavam as mercadorias do sertão para Natal construiu vários armazéns, dando início a uma das principais praças comerciais da bacia do Potengi – a cidade de Macaíba. Em 1858, este entreposto se estabeleceu nos Guarapes, onde dominou o comércio das áreas circunvizinhas e do sertão, até 1872. O local possuía localização privilegiada que se posicionava além das dunas que circundavam a capital, que o fazia um importante entreposto comercial. O seu ancoradouro era tão extenso e profundo como o porto de Natal, chegando a comportar embarcações de até 500 toneladas.

      Fabrício Pedrosa investiu numa estrutura sólida para concentrar o escoamento das áreas circunvizinhas, construiu armazéns na parte baixa próximo ao ancoradouro, além de escritórios, almoxarifados, capela, escola e sua própria casa na parte alta da encosta. O governo da província, percebendo o potencial desse estabelecimento comercial, começou a investir numa estrada ligando o entreposto dos Guarapes a São José, para facilitar a produção do agreste. Outro importante investimento por parte do governo da província foi construir outro acesso a capital, que se iniciava no Baldo ligando a capital a este importante entreposto, pois até então a cidade estava praticamente isolada palas dunas e tabuleiros de areia solta.

       Naquele período, as duas únicas casas comerciais em Natal eram a de Fabrício Pedrosa e a de Johan Ultrich Graff. O entreposto comercial dos Guarapes ultrapassou em importância econômica o de Macaíba e o de Natal. Porém, com a morte do seu proprietário em 1872, iniciou-se seu período de decadência. Além da morte do seu proprietário, outros fatores contribuíram para a decadência deste entreposto comercial: Primeiro foi à desvalorização dos produtos locais no mercado mundial, que ocorreu devido a chegada de novos e poderosos produtos vindos da Europa, depois foi a construção da Estrada de Ferro Natal-Nova Cruz em 1883, que transportava toda a produção canavieira do sul da província, diretamente para o porto de Natal, sem a necessidade de entreposto. Por último, foi o incremento da navegação a vapor bastante incentivada pelo governo imperial, que substituiu definitivamente a navegação à vela, impossibilitando a chegada desses navios de maior porte dos Guarapes, colaborando para a decadência dos centros comerciais de Macaíba e São Gonçalo do Amarante.

Fonte: Iaponira Peixoto de Brito.Da redação do Portal de Comunicação Cristina Rastafári.
Postado Por: Cristina Rastafári

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